quarta-feira, 28 de janeiro de 2015



Um Texto Inteiro Escrito Sem a Letra “A”... É Possível, Sim!

Rico é o português e fértil em recursos diversos, tudo isso permitindo mesmo o que de início, e somente de início, se pode ter como impossível. Pode-se dizer tudo, com sentido completo, mesmo sendo como se isto fosse mero ovo de Colombo.
Desde que se tente sem se pôr inibido pode muito bem o leitor empreender este belo exercício, dentro do nosso fecundo e peregrino dizer português, puríssimo instrumento dos nossos melhores escritores e mestres do verso, instrumento que nos legou monumentos dignos de eterno e honroso reconhecimento
Trechos difíceis se resolvem com sinônimos. Observe-se bem: é certo que, em se querendo esgrime-se sem limites com este divertimento instrutivo. Brinque-se mesmo com tudo. É um belíssimo esporte do intelecto, pois escrevemos o que quisermos sem o "E" ou sem o "I" ou sem o "O" e, conforme meu exclusivo desejo, escolherei outro, discorrendo livremente, por exemplo sem o "P", "R" ou "F", o que quiser escolher, podemos, em corrente estilo, repetir um som sempre ou mesmo escrever sem verbos.
Com o concurso de termos escolhidos, isso pode ir longe, escrevendo-se todo um discurso, um conto ou um livro inteiro sobre o que o leitor melhor preferir. Porém mesmo sem o uso pernóstico dos termos difíceis, muito e muito se prossegue do mesmo modo, discorrendo sobre o objeto escolhido, sem impedimentos. Deploro sempre ver moços deste século inconscientemente esquecerem e oprimirem nosso português, hoje culto e belo, querendo substituí-lo pelo inglês. Por quê?
Cultivemos nosso polifônico e fecundo verbo, doce e melodioso, porém incisivo e forte, messe de luminosos estilos, voz de muitos povos, escrínio de belos versos e de imenso porte, ninho de cisnes e de condores.
Honremos o que é nosso, ó moços estudiosos, escritores e professores. Honremos o digníssimo modo de dizer que nos legou um povo humilde, porém viril e cheio de sentimentos estéticos, pugilo de heróis e de nobres descobridores de mundos novos.

Autor: Desconhecido

Disponível em: <http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/2128979> Acessado em: 23/12/2014.




Concurso Público

O filho termina o segundo grau e não tem vontade de fazer uma faculdade
O pai, meio mão de ferro, dá um apertão:
- Ahh, não quer estudar? Bem, perfeito. Vadio dentro de casa eu não mantenho, então vai trabalhar...

O velho, que tem muitos amigos, fala com um deles, que fala com outro até que ele consegue uma audiência com um político que foi seu colega lá na época de muito tempo atrás:

- Rodrigues!!! Meu velho amigo!!! Tu se lembras do meu filho? Pois é, terminou o segundo grau e anda meio à toa, não quer estudar. Será que tu não consegue nada pro rapaz não ficar em casa vagabundando?

Após 3 dias, Rodrigues liga:

- Zé, já tenho. Assessor na Comissão de Saúde no Congresso, R$ 13.700,00 por mês, prá começar.
- Tu tá loco!!! O guri recém terminou o colégio, não vai querer estudar mais, consegue algo mais abaixo...

Dois dias depois:

- Zé, secretário de um deputado, salário modesto, R$ 9.800,00, tá bom assim?
- Nãooooo, Rodrigues, algo com um salário menor, eu quero que o guri tenha vontade de estudar depois. Consegue outra coisa.

- Zé, não sei se ele vai aceitar, mas tem um de assessor da câmara, que é só de R$ 6.500,00...
- Não, não ainda é muito, aí que ele não estuda mais mesmo.

- Olha Zé, a única coisa que eu posso conseguir é um carguinho de ajudante de arquivo, alguma coisa de informática, mas aí o salário é uma merreca, R$ 3.800,00 por mês e nada mais...
- Rodriguez, isso não, por favor, alguma coisa de 600,00 a 1.200,00 no máximo.
- Isso é impossível Zé!
- Mas, por quê?
- PORQUE com este salário aí eu só tenho vaga pra professor , e aí precisa de CURSO SUPERIOR, MESTRADO, DOUTORADO... Aí é difícil porque precisa passar em concurso!






Sobre a Vírgula



Muito legal a campanha dos 100 anos da ABI
 (Associação Brasileira de Imprensa).

 Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
 Não, espere.
 Não espere..

 Ela pode sumir com seu dinheiro.
 23,4.
 2,34.

 Pode criar heróis..
 Isso só, ele resolve.
 Isso só ele resolve.

 Ela pode ser a solução.
 Vamos perder, nada foi resolvido.
 Vamos perder nada, foi resolvido.

 A vírgula muda uma opinião.
 Não queremos saber.
 Não, queremos saber.

 A vírgula pode condenar ou salvar.
 Não tenha clemência!
 Não, tenha clemência!

 Uma vírgula muda tudo.
 ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.



SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.

 
* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER...
 * Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM.

Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/gramatica/1662189 Acessado em: 11/11/2014.



"O Professor Está Sempre Errado"

 Jó Soares



O que é ser professor?  Esta parece uma pergunta retórica, mas só parece!  Este questionamento está na base das discussões pedagógicas, filosóficas, sociológicas, antropológicas e históricas sobre a atividade docente.  Muito se tem produzido teoricamente sobre o assunto.  Porém, na prática, no dia a dia das instituições nas quais realizamos nossas atividades, vivemos um clima de "cada um por sí e salve-se quem puder".  Ademais, os espaços de sociabilidades institucionais que ocorrem geralmente no início de cada semestre, as chamadas "Semanas Pedagógicas",  que deveriam ser voltadas à reflexão sobre a prática, com felizes exceções, são vistas pela maioria dos professores (pressionados a participar) como mera "perda de tempo" uma vez que são organizadas variavelmente com: dinâmicas de integração (que nem todos gostam), apresentação das regras institucionais (previamente decididas pela direção) uma ou outra palestra com professor pesquisador sobre temas pedagógicos (algumas vezes sem relação direta com a prática).  Soma-se a tudo isso a resistência de muitos professores, experientes ou não, com formação pedagógica ou não, em refletir sobre a sua prática.  
Não é à toa que se reproduzam, neste contexto de desvalorização da atividade docente, frases, textos, imagens e ideias que expressam determinadas representações do "Ser professor" e da Educação.  Vez por outra recebemos alguma em nossas caixas de mensagens, rimos muito (ou poderíamos chorar) e repassamos aos demais colegas.   Essas mensagens, no entanto, são carregadas de ideologias que indicam, em parte, o que se não acreditamos, acabamos por legitimar com a sua divulgação, algumas vezes incluindo comentários sarcásticos ou desanimados no cabeçalho.  Há também aquelas que supervalorizam a profissão ou a romantizam.  Felizmente é possível encontrar textos provocativos que, com humor refinado e assumindo uma perspectiva dialética, conseguem expressar a complexidade da questão, nos impelindo à reflexão. 
Inauguro neste blog uma página para postar, comentar e receber comentários sobre as representações do professor presentes nestes textos, afim de aprimorarmos o debate franco e consciente sobre a nossa prática e nos contrapormos às ideias deturpadas e parciais sobre a nossa profissão.
Para inaugurar  essa seção e provocar o início deste debate trago a crônica de Jô Soares "O Professor Está Sempre Errado".


O Professor Está Sempre Errado


O material escolar mais barato que existe na praça é o professor!
Se É jovem, não tem experiência.
Se É velho, está superado.
Se Não tem automóvel, é um pobre coitado.
Se Tem automóvel, chora de "barriga cheia'.
Se Fala em voz alta, vive gritando.
Se Fala em tom normal, ninguém escuta.
Se Não falta ao colégio, é um 'caxias'.
Se Precisa faltar, é um 'turista'.
Se Conversa com os outros professores, está 'malhando' os alunos.
Se Não conversa, é um desligado.
Se Dá muita matéria, não tem dó do aluno.
Se Dá pouca matéria, não prepara os alunos.
Se Brinca com a turma, é metido a engraçado.
Se Não brinca com a turma, é um chato.
Se Chama a atenção, é um grosso.
Se Não chama a atenção, não sabe se impor.
Se A prova é longa, não dá tempo.
Se A prova é curta, tira as chances do aluno.
Se Escreve muito, não explica.
Se Explica muito, o caderno não tem nada.
Se Fala corretamente, ninguém entende.
Se Fala a 'língua' do aluno, não tem vocabulário.
Se Exige, é rude.
Se Elogia, é debochado.
Se O aluno é reprovado, é perseguição.
Se O aluno é aprovado, deu 'mole'
É, o professor está sempre errado, mas, se conseguiu ler até aqui, agradeça a ele!


 (Jô Soares)





Poesia sobre os elementos

"Seja terra", disse o mestre. "A terra recebe os desejos de homens e animais, e não é perturbada por isso; muito pelo contrario, transforma as impurezas em adubo, e fertiliza o campo."

"Seja água", disse o mestre. "A água limpa a si mesma, e limpa tudo aquilo que toca. Seja água em torrente."

"Seja fogo", disse o mestre. "O fogo faz a madeira podre transformar-se em luz e calor. Seja o fogo que queima e purifica."

"Seja vento", disse o mestre. "O vento espalha as sementes sobre a terra, faz o fogo arder com mais brilho, empurra as nuvens - para que a água caia sobre todos os homens."

"Se você tiver a paciência da terra, a pureza da água, a força do fogo, e a justiça do vento, você está livre"

(sem autor)



"Aula de leitura"                                                                                                       Ricardo Azevedo 

A leitura é muito mais
do que decifrar palavras.
Quem quiser parar pra ver
pode até se surpreender:
vai ler nas folhas do chão,
se é outono ou se é verão;
nas ondas soltas do mar,
se é hora de navegar;
e no jeito da pessoa,
se trabalha ou se é à-toa;
na cara do lutador,
quando está sentindo dor;
vai ler na casa de alguém
o gosto que o dono tem;
e no pêlo do cachorro,
se é melhor gritar socorro;
e na cinza da fumaça,
o tamanho da desgraça;
e no tom que sopra o vento,
se corre o barco ou vai lento;
também na cor da fruta,
e no cheiro da comida,
e no ronco do motor,
e nos dentes do cavalo,
e na pele da pessoa,
e no brilho do sorriso,
vai ler nas nuvens do céu,
vai ler na palma da mão,
vai ler até nas estrelas
e no som do coração.
Uma arte que dá medo
é a de ler um olhar,
pois os olhos têm segredos
difíceis de decifrar.

Poema extraído do livro: AZEVEDO, Ricardo. Dezenove poemas desengonçados. São Paulo: Ática,1999.


Pá, Pá, Pá (Pois sim, e Pois não)

A americana estava há pouco tempo no Brasil. Queria aprender o português depressa, por isto prestava muita atenção em tudo que os outros diziam. Era daquelas americanas que prestam muita atenção.
Achava curioso, por exemplo, o “pois é”. Volta e meia, quando falava com brasileiros, ouvia o “pois é”. Era uma maneira tipicamente brasileira de não ficar quieto e ao mesmo tempo não dizer nada. Quando não sabia o que dizer, ou sabia mas tinha preguiça, o brasileiro dizia “pois é”. Ela não aguentava mais o “pois é”.
Também tinha dificuldade com o “pois sim” e o “pois não”. Uma vez quis saber se podia me perguntar uma coisa.
- Pois não – disse eu, polidamente.
- É exatamente isso! O que quer dizer “pois não”?
- Bom. Você me perguntou se podia fazer uma pergunta. Eu disse “pois não”. Quer dizer, “pode, esteja à vontade, estou ouvindo, estou às suas ordens…”
- Em outras palavras, quer dizer “sim”.
- É.
- Então por que não se diz “pois sim”?
- Porque “pois sim” quer dizer “não”.
- O quê?!
- Se você disser alguma coisa que não é verdade, com a qual eu não concordo, ou acho difícil de acreditar, eu digo “pois sim”.
- Que significa “pois não”?
- Sim. Isto é, não. Porque “pois não” significa “sim”.
- Por quê?
- Porque o “pois”, no caso, dá o sentido contrário, entende? Quando se diz “pois não”, está-se dizendo que seria impossível, no caso, dizer “não”. Seria inconcebível dizer “não”. Eu dizer não? Aqui, ó.
- Onde?
- Nada. Esquece. Já “pois sim” quer dizer “ora, sim!”. “Ora se aceitar isso.” “Ora, não me faça rir. Rá, rá,rá.”
- “Pois” quer dizer “ora”?
- Ahn… Mais ou menos.
- Que língua!
Eu quase disse: “E vocês, que escrevem ‘tough’ e dizem ‘tâf’?”, mas me contive. Afinal, as intenções dela eram boas. Queria aprender. Ela insistiu:
- Seria mais fácil não dizer o “pois”.
Eu já estava com preguiça.
- Pois é.
- Não me diz “pois é”!
Mas o que ela não entendia mesmo era o “pá, pá, pá”.
- Qual o significado exato de “pá, pá, pá”.
- Como é?
- “Pá, pá, pá”.
- “Pá” é pá. “Shovel”. Aquele negócio que a gente pega assim e…
- “Pá” eu sei o que é. Mas “pá” três vezes?
- Onde foi que você ouviu isso?
- É a coisa que eu mais ouço. Quando brasileiro começa a contar história, sempre entra o “pá, pá, pá”.
Como que para ilustrar nossa conversa, chegou-se a nós, providencialmente, outro brasileiro. E um brasileiro com história:
- Eu estava ali agora mesmo, tomando um cafezinho, quando chega o Túlio. Conversa vai, conversa vem e coisa e tal e pá, pá, pá… Eu e a americana nos entreolhamos.
- Funciona como reticências – sugeri eu. – Significa, na verdade, três pontinhos. “Ponto, ponto, ponto.”
- Mas por que “pá” e não “pó”? Ou “pi” ou “pu”? Ou “etcétera”?
Me controlei para não dizer – “E o problema dos negros nos Estados Unidos?”.
Ela continuou:
- E por que tem que ser três vezes?
- Por causa do ritmo. “Pá, pá, pá.” Só “pá, pá” não dá.
- E por que “pá”?
- Porque sei lá – disse, didaticamente.
O outro continuava sua história. História de brasileiro não se interrompe facilmente.
- E aí o Túlio com uma lengalenga que vou te contar. Porque pá, pá, pá…
- É uma expressão utilitária – intervim. – Substitui várias palavras (no caso toda a estranha história do Túlio, que levaria muito tempo para contar) por apenas três. É um símbolo de garrulice vazia, que não merece ser reproduzida. São palavras que…
- Mas não são palavras. São só barulhos. “Pá, pá, pá.”
- Pois é – disse eu.
Ela foi embora, com a cabeça alta. Obviamente desistira dos brasileiros. Eu fui para o outro lado. Deixamos o amigo do Túlio papeando sozinho.
Autor: Luís Fernando Verissimo