sábado, 7 de julho de 2012

Poesia Matemática


Poesia Matemática
Millôr Fernandes

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Texto extraído do livro "
Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Funções da Linguagem

Conteúdo recorrente em concursos, certificações e similares é o que diz respeito às funções da Linguagem. Em todas as relações  que mantemos usamos diversas funções de linguagem.
Eis aqui um apontamento.
Antes de estudarmos Funções de Linguagem, é essencial que tenhamos o conhecimento de alguns elementos da comunicação:
a) Emissor ou destinador: é de onde se parti a mensagem;
b) Mensagem: é o conteúdo informativo que está sendo transmitido;
c) Receptor ou destinatário: é o alvo do emissor para receber a mensagem transmitida;
d) Canal de Comunicação: é o meio pelo qual a mensagem é transmitida. Visual, auditivo ou sinestésico (visual e auditivo);
e) Código: é a maneira pela qual a mensagem se organiza. O código é formado por um conjunto de sinais, organizados de acordo com determinadas regras. Pode ser através da fala, escrita, gestos, código Morse, sons etc. O código deve ser de conhecimento do emissor e do receptor;
f) Contexto ou Referente: é o objeto ou a situação a que a mensagem se refere. 
 
Eis as Funções:

FUNÇÃO REFERENCIAL, DENOTATIVA ou INFORMATIVA

Centrada no referente (informações da realidade).
Sua finalidade é Traduzir a realidade, o sentido real das coisas. Preocupa-se com a mensagem. Objetiva, direta, denotativa.
Caracteriza-se pela neutralidade do emissor; objetividade e precisão; conteúdo informacional; verbos na 3ª pessoa.
Exemplos: Textos jornalísticos, científicos, arte realista, cartas comerciais, redações técnicas, manuais de instruções, bulas de remédios, relatórios, resenhas, resumos, informes e descrições. Na propaganda – informações gerais sobre o produto ou serviço. 
 
FUNÇÃO EMOTIVA ou EXPRESSIVA
Centralizada no O emissor (sua opinião, emoção, atitude)
Tem por finalidade expressar opiniões, emoções, sentimentos, atitude em relação ao conteúdo.
Suas características são: Verbos e pronomes em 1ª pessoa, julgamentos subjetivos, interjeições com valor emotivo; entonações características (oral); figuras literárias; criações literárias.
Exemplos: Autobiografias, cartas de amor, cartas líricas, memórias, poesias líricas, biografias. Na propaganda  quando o comercial é feito por meio de testemunho de pessoas conhecidas publicamente (artistas, desportistas, etc.) que expressam suas opiniões sobre o produto ou serviço anunciado. 
 
*       De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto,
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Vinícius de Morais
 http://exercicios.brasilescola.com/gramatica/exercicios-sobre-as-funcoes-linguagem.htm#questao490         Acessado em: 03/7/2012    
                    
FUNÇÃO CONATIVA ou APELATIVA
Centraliza-se no  receptor (destinatário)
Tem por objetivo convencer o receptor a praticar determinada ação, ou seja, influenciar o comportamento do destinatário da mensagem.
Caracteriza-se por apresentar verbos no imperativo na 2ª ou 3ª pessoa; uso de vocativos; uso de pronomes de 2ª pessoa – tu, vós, você, vocês.
Exemplos: Textos publicitários e políticos, linguagem comum, sermões, propagandas, figuras de linguagem.
Exemplo:
Quando saí de casa, o velho José Paulino me disse:
Não vá perder o seu tempo. Estude, que não se arrepende.
Eu não sabia nada. Levava para o colégio um corpo sacudido pelas paixões de homem feito e uma alma mais velha do que o meu corpo. Aquele Sérgio, de Raul Pompéia, entrava no internato de cabelos grandes e com uma alma de anjo cheirando a virgindade. Eu não: era sabendo de tudo, era adiantado nos anos, que ia atravessar as portas do meu colégio.
Menino perdido, menino de engenho.
José Lins do Rego - Menino de Engenho, Ed. Moderna Ltda., São Paulo, 1983.

Tem-se na fala de José Paulino exemplo de função de linguagem denominada conativa ou apelativa.

http://vestiweb.blogspot.com.br/2012/05/exercicios-funcao-da-linguagem-e-do-que.html                                 Acessado em: 03/7/2012

FUNÇAO METALINGUÍSTICA
Centraliza-se no código.
Objetiva dar explicações ou dar precisão ao código utilizado pelo emissor. Falar da própria linguagem, a língua como forma de expressão. Fornecer informações conceituais, definições e explicações.
Características: Usa-se o código para falar dele mesmo: literatura, pintura, cinema, música, etc.
Uso de expressões como “isto é”, ”ou seja,”, “quer dizer”.
A língua é um sistema de signos que exprime ideias.
Exemplos: Gramática, dicionário, a poesia que fala da poesia, um texto que comenta outro texto, textos explicativos e didáticos, linguagem científica, comentários descritivos de imagens, análises, propaganda de propaganda, sinais de trânsito, etc.
Exemplo:
 
POÉTICA

Que é poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos os lados
Que é um poeta?
um homem
que trabalha um poema
com o suor do seu rosto
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.
(Cassiano Ricardo)

http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=11399  Acessado em: 03/7/2012

 
FUNÇÃO FÁTICA ou de CONTATO
Centraliza-se no  canal  (o contato físico ou psicológico)
Finalidade: Chamar a atenção do receptor e assegurar que este não se distraia. Prolongar ou interromper a comunicação. Tudo o que na mensagem serve para estabelecer,  manter ou cortar o contato.
Caracteriza-se pela manifestação do desejo de comunicação e pela  manutenção dos vínculos sociais.
Exemplos: As falas telefônicas e informais, a música, os cumprimentos
 
     A ascensorista e o viúvo trataram-se  como sempre:

-Tudo bem com você?
- Tudo. E você?
-Tudo bem!
-Ah... Até mais tarde.
-Até mais tarde

http://exercicios.brasilescola.com/gramatica/exercicios-sobre-as-funcoes-linguagem.htm#resposta-490    03/7/2012     Acessado em: 03/7/2012

Alô! Você está me ouvindo? Um momento, por favor. Vou desligar

http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=11399   Acessado em: 03/7/2012
" - Que coisa, né?
- É. Puxa vida!
- Ora, droga!
- Bolas!
- Que troço!
- Coisa de louco!
- É!"

http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=11399   Acessado em: 03/7/2012
Um outro exemplo de função fática:
extraído de “ a hora da estrela” de Clarisse Lispector.
“Enfim o que acontecer, acontecera. e por quanto nada aconteceria, os dois não sabiam inventar acontecimentos. sentavam- se no que é de graça: banco de praça pública. e de acomodados, nada os destinguiria do resto do nada. para a grande glória de deus. ele fala:
ele:- pois é!
ela:- pois é o que?
ele:- eu só disse pois é!
ela:- mas pois é o que?
ele:- melhor mudar- mos de assunto por que você não me entende.
ela:- entende o que?
ele:- santa virgem Macabéa, vamos mudar de assunto e já! 



FUNÇÃO POÉTICA
Está centrada na  própria mensagem
Seu objetivo é Suplementar ou modificar o sentido denotativo da mensagem. É dominante na poesia mas vai além desta.
Suas Características são: Ritmo; Jogo das sonoridades; Estrutura; Grafismo; Espacialidade; Figuras de harmonia, repetição e pensamento.
Exemplos: Textos literários, poesias e versos, propaganda.

O verbo infinitivo

Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então ouvir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito... (Vinícius de Morais)

http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=11399
Acessado em: 03/7/2012


A função poética é mais comum em textos literários, especialmente nos poemas que enfatizam com mais frequência a subjetividade. Todavia podemos encontrar esse tipo de função nos anúncios publicitários e na prosa, bem como aliada aos demais tipos de função, como a emotiva.
Anúncio publicitário:
"Chegou o milagre azul para lavar!
Lave na espuma de Omo e tenha a roupa mais limpa do mundo!
Onde Omo cai, a sujeira sai!" (propaganda Omo, 1957)


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Figuras de Linguagem

Figuras de Linguagem
O que são?

Figuras de linguagem são modos de dizer, desviados das normas gramaticais, que visam, sobretudo dar maior expressividade à comunicação.
São recursos expressivos de que se vale quem fala ou escreve para dar à comunicação mais força, colorido, intensidade e beleza.
As normas estabelecidas pela gramática normativa nem sempre são seguidas pelo falante, já que, muitas vezes, ocorrem “desvios” da norma. Os “desvios” podem ocorrer por vários motivos, mas, principalmente,  quando o falante se desvia da norma culta com a intenção deliberada de reforçar a mensagem, tornando-a mais criativa e original, ou quando não conhece a norma culta, ou seja, o “desvio” é fruto da ignorância do falante em relação à língua culta.
As figuras constituem os “ornamentos” do discurso. A figura se opõe à linguagem simples. Ela desvia os elementos da linguagem comum do seu uso normal criando uma linguagem nova.
As figuras de linguagem não são apenas enfeitas. Ao contrário, são uma maneira de aperfeiçoar o comportamento intelectual (reflexão, compreensão, análise e uso mais eficaz da linguagem. As figuras devem ser entendidas como recursos estilísticos que aprimoram nossas mensagens, tornando-as mais eficientes.
Mais do que um enfeite, as figuras de linguagem  sugerem conteúdos emotivos e intuitivos por meio das palavras conforme sua organização.
As figuras de linguagem fazem parte da ESTILÍSTICA, por isso, também são chamadas de figuras de estilo, e são classificadas em três grupos:
o   Figuras de palavras ou tropos
o   Figuras de pensamento
o   Figuras de construção ou de sintaxe
o   Figuras de som

Um exemplo de figura de linguagem é a onomatopeia, que é uma figura de som. Ela linguisticamente sons e ruídos do mundo natural.
Exemplo: 

 
A Língua de Nhem

 


Cecília Meireles

Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.

E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também

a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,

ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo, Nova Fronteira

Acessado em: 02/7/2012

 
As onomatopeias são largamente usadas no gênero textual História em Quadrinhos.
Confira este exemplo: