sábado, 11 de maio de 2013

AMOR GRAMATICAL



Amor Gramatical
Por Fernanda Braga da Cruz



Redação feita por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa.

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino, com aspeto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.
De repente, o elevador para, só com os dois lá dentro.
Ótimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e para exatamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento. 

Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo. 

Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto. Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois. 

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.
Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.
Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz ativa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.
Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objeto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.
Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. 

Nisto a porta abriu-se repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjetivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. 

Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício. 

Que loucura, meu Deus! Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objetos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois. 

Só que, as condições eram estas:
Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

 




em versos

Amor gramatical


Era a terceira vez que aquele substantivo
E aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino,
com um aspecto plural,
Com alguns anos bem vividos
Pelas preposições da vida.


E o artigo era bem definido,
feminino, singular:
era ainda novinha,
mas com um maravilhoso predicado nominal.

Era ingênua,silábica, um pouco átona
Até ao contrário dele:
Um sujeito oculto
com todos os vícios da linguagem
fanáticos por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo gostou dessa situação:
Os dois sozinhos
Num lugar sem nínguem ver e ouvir
E sem perder essa oportunidade,
Começou a se insinuar,
a perguntar,
a conversar.

O artigo feminino
deixou as reticências de lado,
e permitiu esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára,
Só com os dois lá dentro:
ótimo, pensou o substantivo,
mais um bom motivo
Para provocar alguns sinônimos.

Pouco tempo depois,
já estavam bem entre parênteses,
Quando o elevador recomeça a se movimentar:
só que em vez de descer,
sobe e pára justamente no andar do substantivo.
Ele usou toda sua flexão verbal,
e entrou com ela em seu aposto.

Ligou o fonema,
E ficaram alguns instantes em silêncio,
Ouvindo um fonética clássica,
bem suave a gostosa.

Prepararam uma sintaxe dupla para ele
E um hiato com gelo a ela
Ficaram conversando,
sentados num vocativo,
quando ele começou outra vez a se insinuar.

Ela foi deixando,
Ele foi usando seu forte adjunto adverbial,
E rapidamente chegaram a um imperativo,
todos os vocábulos diziam
que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar,
ela tremendo de vocabulário,
E ele sentindo seu ditongo crescente:
Se abraçaram, numa pontuação tão minúscula,
que nem um período simples passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou
que ainda era vírgula:
Ele não perdeu o ritmo
E sugeriu um longo ditongo oral,
E quem sabe,talvez,
uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.

È claro que ela se deixou levar por essas palavras,
Estava totalmente oxítona às vontades dele,
E foram para o comum de dois gêneros,
Ela totalmente voz passiva,
Ele voz ativa.

Entre beijos,
Carícias,
Parônimos
e substantivos,
Ele foi avançando cada vez mais:

Ficaram uns minutos nessa próclise,
E ele, com todo o seu predicativo do objeto,
ia tomando conta dela inteira.

Estavam na posição
De primeira e segunda pessoa do singular,
ela era um perfeito agente da passiva,
ele todo paroxítono,
Sentindo o pronome
do seu grande travessão
Forçando aquele hífen ainda singular.

Nisso a porta abriu repentinamente
era o verbo auxiliar do edifício.
Ele tinha percebido tudo,
e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois,
que se encolheram gramaticalmente,
Cheios de preposições,locuções e exclamativas.

Mas ao ver aquele corpo jovem,
numa acentuação tônica,
Ou melhor,
Subtônica,
o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios,
e declarou seu particípio na história.


Os dois se olharam,
E viram que isso era o melhor
do que uma metáfora por todo o edifício.

O Verbo auxiliar se entusiasmou,
e mostrou o seu adjunto adnominal.
Que loucura,minha gente.
Aquilo não era nem comparativo:
Era um superlativo absoluto.

Foi se aproximando dos dois,
com aquela coisa maiúscula.
com aquele predicativo do sujeito
apontado para seus objetos.

Foi chegando cada vez mais perto,
comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo,
propondo claramente uma mesóclise-a-trois.


Só que as condições eram estas:
Enquanto abusava de um ditongo nasal,
penetraria ao gerúndio do substantivo,
e culminaria com um complemento verbal
No artigo feminino.

O substantivo
vendo que poderia se transformar
num artigo indefinido depois dessa,
pensando em seu infinitivo,
resolveu colocar um ponto final na história:
Agarrou o verbo auxiliar pelo conectivo,
E jogou pela porta afora,e voltou ao seu trema,
cada vez mais fiel à língua portuguesa,
Com o artigo feminino colocado
em conjunção coordenativa conclusiva.

Agora quem coloca o ponto final sou eu.
Ou melhor :
coloco dois.
Um ,
é para não perder a mania.
Outro,
é porque isso é um conto rápido
e não uma oração adjetiva explicativa.

Autor Desconhecido....




em cordel


Cordel-->ENCONTRO DO SUBSTANTIVO COM ARTIGO FEMININO.
18/01/2008 - 22:30 (Henrique César Pinheiro)
BASEADO NA REDAÇÃO ABAIXO, QUE PUBLICO PARA CONHECIMENTO DA VERVE DA ALUNA E PARA SE ENTENDER ESTE CORDEL.
O NOME DA ALUNA DEIXOU DE PUBLICAR POR NÃO SABERR, MAS OS MÉRITOS SÃO TODOS DELA.

Os sujeitos, artigo e substantivo,
Encontraram-se num elevador.
O artigo, feminino, só pudor;
Substantivo mais velho e mais ativo;
O artigo já era bem mais esquivo.
Substantivo com seu aspecto plural,
Tendo aquele ar muito prefixal;
Duma vida cheia de preposições,
E também com muitas elocuções,
Viu aquele predicado nominal,

Que também era muito definido
E até mesmo bem muito singular
Aproveitou o sossego do lugar
E não sendo nem pouco comedido,
Mas enfático e descontraído,
Buscou, sem que os vícios de linguagem,
Viessem a atrapalhar sua abordagem
Pra novinha foi se insinuar
E aquela ocasião aproveitar.
O que fez sem ter medo, com coragem.

Ao contrário do sujeito oculto,
Entretanto silábica ela ficou,
Por ser átona nessa não embarcou,
Ele por um sujeito mais adulto
E fanático por filme, bem culto,
Ainda mais se for filme ortográfico,
Dela fez um perfil meio biográfico
Ali os dois sozinhos sem ninguém
Pra ouvir, ver, contar para alguém
Aquele ato bem cinematográfico.


Entretanto aos poucos reticências,
Ela foi pondo-as para o lado
E o que achou um papo furado
Deixou índices terem boas anuências,
Os pequenos, sem grandes abrangências.
De repente se pára elevador
Substantivo com seu ar de doutor
Tem ali bom motivo pra sinônimos;
Subterfúgios e até os pseudônimos.
Do que se aproveitou o sedutor.

Depois de aparadas as reticências
Já estavam bem entre os parênteses
Com ajuda de todos os epênteses,
Mas foi o elevador em ascendências,
No andar do substantivo veio anuências,
Depois de usar sua flexão verbal,
Entrou no seu aposto bem normal.
Ligou de imediato o fonema
Em silêncio, ela firme, suprema.
E ouviram um som fenomenal.

A fonética clássica, bem suave
E gostosa se fez sintaxe dupla
Para ele. Um hiato, que se decupla,
Com um pouco de gelo, sem entrave,
Para ela, que sentada, nada grave,
Num luxuoso, bonito vocativo
Que se tornam agora mais ativo.
Entretanto, ela usando seu forte,
O adjunto adverbial, ele com sorte,
Chegam muito bem ao imperativo.

Os vocábulos, dizem todos que
O fim é num transitivo direto.
Entretanto de um modo correto
E discreto para ninguém saber.
Porém tudo fizeram pra se ver.
Começaram a se aproximar
Pra poderem aquilo terminar.
Ela tremendo no vocabulário
Ele não sendo mesmo perdulário
Mas sentindo que ali ia levantar.

Pois estava seu ditongo crescente.
Abraçaram-se, numa pontuação
Tão minúscula que período não
Tinha como passar, ainda que fosse
Um período simples; até um doce.
Nessa ênclise, ela ali confessou:
Quero que saiba, vírgula eu sou.
Assim mesmo ele não perdeu o ritmo.
Passou a elogiar seu logaritmo.
Desta vez de artimanha ele usou.

Isto é, uma outra soletrada,
No seu apóstrofo, ele logo deu.
Claro que ela também não se escafedeu.
Pois estava um pouco apaixonada.
E há muito pensava na cantada,
Com palavras oxítonas estava
À mercê dele que não a largava.
Para comum de dois gêneros foram.
Perda de tempo não há. Não demoram.
Voz passiva, que voz ativa amava.

Entre beijos, carícias, substantivos,
E parônimos foi ele avançando.
Do que ambos estavam bem gostando.
Nessa próclise, pouco pensativos
Uns minutos ficaram intuitivos.
Ele com todo o seu predicativo
Do objeto de modo muito ativo
Ia tomando conta da situação,
O hífen bem perto por travessão
Foi forçado de modo conclusivo.

Muito firme de forma singular,
De um modo bastante paroxítono,
Parecendo até mesmo um barítono.
De repente vem o verbo auxiliar
Do edifício só pra atrapalhar.
Percebido já tudo ele tinha.
Colocar todos dois dentro da linha.
Adjetivos e as conjunções deu
Ele aos dois. E depois dali desceu.
Assim trêmula ficou. Coitadinha!

Mas de uma maneira gramatical
Ambos se encolheram, preposições,
Os remorsos e todas locuções
Que daquela maneira bem frasal
Empregadas de forma adverbial
Que ainda os deixou cheio de exclamativas
Diminuídas as suas expectativas.
Depois de ver aquele corpo jovem,
Que as tônicas acentuações demovem,
Baixou as repreensões adversativas.

Daí verbo auxiliar com seus advérbios
Diminuiu particípio na história
Mesmo de forma muito compulsória.
Depois de abusar muito dos prevérbios,
Toda sua sabedoria em advérbios,
Pra metáfora não ter no edifício
Foi o verbo auxiliar pro sacrifício,
Junto com o adjunto adnominal
E também com adjunto adverbial
Que foi feito de modo sub-reptício.

Que loucura. Não é comparativo
Mesmo aquilo, ó minha boa gente.
Talvez, não haja mesmo quem agüente.
Porque se trata do superlativo
Absoluto que com predicativo
Do sujeito foi se aproximando
Uma coisa maiúscula apontando
Pra os dois. E ditongo substantivo
Comparado ao tritongo bem ativo,
E mesóclise-a-trois foi propondo.


Entretanto sob estas condições:
Abusar de um ditongo nasal.
Complemento verbal pré-nupcial,
Pra acabar com aquelas confusões,
Seriam dadas muitas penetrações.
Também no gerúndio do substantivo
E no artigo bastante grande, ativo,
Mas também feminino, e transformar
Substantivo pra seu grande azar
Em artigo indefinido, mas vivo.

Depois dessa, mas pensando no que
Poderá vir a ser seu infinitivo
No que foi belo caso genitivo,
Antes que tudo se viesse saber,
E até muitos outros conhecer,
Resolveu-se final dá a história,
Porque isso foi uma boa vitória.
Conectivo do verbo auxiliar
Agarraram, tiraram do lugar.
E seu trema pra língua foi boa glória.

Colocado artigo feminino
Em uma conjunção coordenativa
Conclusiva de forma persuasiva
Substantivo foi-se muito ativo.
O artigo continuou bem passivo,
Com saudades e suas interjeições
E sofrendo os pontos exclamações.
Porque só vale quem tem numeral.
Tudo vai se perder na voz passiva
Porque todos os agentes da ativa
Só resolvem no pronome pessoal.

HENRIQUE CÉSAR PINHEIRO
JANEIRO/2008




quinta-feira, 25 de abril de 2013



O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS




Lima Barreto

Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver.
Houve mesmo, uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso.
O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:
- Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo !
- Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado !
- Cansa-se; mas, não é disso que me admiro. O que me admira, é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.
- Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!
- Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?
- Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.
- Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?
- Bebo.
Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:
- Eu tinha chegado havia pouco ao Rio estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anuncio seguinte:
"Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc." Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os "cadáveres". Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo maleo-polinésico, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.
A Encyclopédie dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras. Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los.
À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu "a-b-c" malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente.
Convenci-me que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:
- Senhor Castelo, quando salda a sua conta?
Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança:
- Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de javanês, e...
Por aí o homem interrompeu-me:
- Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo?
Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem:
- É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é?
Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:
- Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, Senhor Castelo?
Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.
Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à Rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que numero. E preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder "como está o senhor?" - e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico.
Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil - podes ficar certo - aprender o javanês... Fui a pé. Cheguei suadíssimo; e, Com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza...
Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava mal tratada, mas não sei porque me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou mal cuidadas.
Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças. Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento.
Na sala, havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antigüidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos...
Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço de alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei.
- Eu sou, avancei, o professor de javanês, que o senhor disse precisar.
- Sente-se, respondeu-me o velho. O senhor é daqui, do Rio?
- Não, sou de Canavieiras.
- Como? fez ele. Fale um pouco alto, que sou surdo, - Sou de Canavieiras, na Bahia, insisti eu. - Onde fez os seus estudos?
- Em São Salvador.
- Em onde aprendeu o javanês? indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos.
Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.
- E ele acreditou? E o físico? perguntou meu amigo, que até então me ouvira calado.
- Não sou, objetei, lá muito diferente de um javanês. Estes meus cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio...Tu sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro.
- Bem, fez o meu amigo, continua.
- O velho, emendei eu, ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, pareceu que me julgava de fato filho de malaio e perguntou-me com doçura:
- Então está disposto a ensinar-me javanês?
- A resposta saiu-me sem querer: - Pois não.
- O senhor há de ficar admirado, aduziu o Barão de Jacuecanga, que eu, nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas...
- Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos... ? .
- O que eu quero, meu caro senhor....
- Castelo, adiantei eu.
- O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse: "Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz." Meu pai, continuou o velho barão, não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até a esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice que me 1embrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, se não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro, que preciso entender o javanês. Eis aí.
Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o tal livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante.
Veio o livro. Era um velho calhamaço, um in-quarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.
Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço, até que afinal contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano.
Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês e o Senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia e desaprendia.
A filha e o genro (penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram a coisa boa para distraí-lo.
Mas com o que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa Única! Ele não se cansava de repetir: "É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava !"
O marido de Dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo.
Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon. Como ele ouvia aquelas bobagens !...
Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia aos seus olhos !
Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada.
Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a cousa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também.
Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. - "Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!" Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso.
O diretor chamou os chefes de secção: "Vejam só, um homem que sabe javanês - que portento!"
Os chefes de secção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: "Então sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!"
O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que não e fui à presença do ministro.
A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, concertou o pince-nez no nariz e perguntou: "Então, sabe javanês?" Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem, disse-me o ministro, o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no Congresso de Lingüística. Estude, leia o Hovelacque, o Max Müller, e outros!"
Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.
O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no testamento.
Pus-me com afã no estudo das línguas maleo-polinésicas; mas não havia meio!
Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: "Lá vai o sujeito que sabe javanês." Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entenderem o tal javanês. A convite da redação, escrevi, no Jornal do Comércio um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna...
- Como, se tu nada sabias? interrompeu-me o atento Castro.
- Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a mais não poder.
- E nunca duvidaram? perguntou-me ainda o meu amigo.
- Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês - uf!
Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na secção do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela secção; não conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano brasileiro, me estava naturalmente indicada a secção do tupi- guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme prometi.
Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bâle, em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga.
Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da república, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia.
Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.
- É fantástico, observou Castro, agarrando o copo de cerveja.
- Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser ?
- Que?
- Bacteriologista eminente. V amos?
- Vamos.



Acessado em: 06.06.2007